[ Outro dia, eu tava num elevador, só eu e uma velhinha. Comecei a olhar para a senhora, seu vestido florido… Senti uma vontade louca de dizer para ela como era ridículo aquele nosso silêncio, aquele ‘bom dia’ tímido e aquele olhar pra baixo, um desviando do outro como se fossem dois fios desencapados que se entrassem em contato soltariam faísca. Eu queria chacoalha-la e perguntar: a senhora é feliz? A senhora é casada? Solteira? A senhora tem orgasmos? A senhora gosta de filé à parmegiana? Não, minha senhora? Não é feliz? Não tem orgasmos? Não come filé à parmegiana há duas semanas? Então o que a senhora está fazendo aqui? Saia desse elevador e trate de arrumar um amante, um restaurante, uma aula de jardinagem, aprenda a tocar cuíca, minha senhora, a dançar tango, vá tomar sol, ou então tome uma caipirinha. Tome logo duas! Daqui a pouco acaba. Não a caipirinha - o que já seria ruim - mas a vida mesmo - o que é pior ainda. Eu, você, esse elevador, a caipirinha, a cidade e a civilização que nos produziram acabarão também. Até o universo, dizem as más línguas, pode dar com os burros n’água qualquer hora dessas, e nós aqui, brincando de desviar a vista no elevador. Não é ridículo? ]
» assim funciona a cabeça do Antônio Prata. ;)